O bioco era uma capa preta, comprida até aos pés, lançada sobre a cabeça de forma a esconder o rosto. Foi proibido em 1892 pelo governador civil de Faro, mas em Olhão continuou a usar-se durante décadas: o Arquivo Municipal guarda fotografias de 1947 e 1948 de mulheres de bioco à porta da Igreja Matriz.
Durante gerações, as mulheres de Olhão saíram à rua cobertas por um manto negro que as escondia da cabeça aos pés. Chamava-se bioco. Foi proibido por lei, foi chamado máscara e foi visto como liberdade. E em Olhão durou muito mais do que no resto do Algarve.
O que era o bioco
Era uma capa preta, ampla e comprida até aos pés, que se lançava sobre a cabeça e formava um capuz à frente do rosto. Quem passava na rua via um vulto negro e pouco mais: a mulher via sem ser vista.
O escritor Raul Brandão descreveu-o em Os Pescadores (1923), no capítulo dedicado a Olhão: "O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis. É um trajo misterioso e atraente." Junto com o bioco, as olhanenses usavam o calçado a que Brandão chama cloques, que fazia "cloque-cloque" no lajedo da rua.
A proibição de 1892
A 6 de setembro de 1892, o governador civil de Faro, Júlio Lourenço Pinto, aprovou um Regulamento Policial para o distrito. O artigo 32.º dizia: "É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito o uso dos chamados rebuços ou biocos." O artigo seguinte apanhava também os homens que se disfarçassem de mulher.
Para o governador, o bioco era uma "máscara", de um "negro sepulcral", que deixava andar pela rua gente impossível de reconhecer. Não foi a primeira tentativa: já em 1649 tinha havido leis contra os rebuços, que ficaram letra morta.
A de 1892 também não acabou com o bioco de um dia para o outro. Pelo Algarve fora, muitas mulheres trocaram-no por um xaile preto pelas costas e um lenço atado por baixo do pescoço. Em Olhão, não.
"Parecem fantasmas"
Raul Brandão passou por Olhão e deixou a imagem mais conhecida do bioco:
"Ainda há pouco tempo todas usavam cloques e bioco. [...] Quando saem, de negro, envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos."
Repara no "ainda há pouco tempo": nos anos 20, o escritor já o via a desaparecer. Mas as fotografias mostram que em Olhão aguentou bem mais.
Prisão ou liberdade?
Hoje é fácil comparar o bioco a uma burca. Na época, nem toda a gente o via como uma forma de esconder as mulheres. A escritora e feminista Maria Veleda defendeu-o num artigo de 1901 em nome da liberdade feminina: de bioco, uma mulher podia sair à rua sem ser reconhecida, ir onde quisesse e sem dar satisfações.
Quanto à origem, a ideia de que vinha do tempo dos mouros é antiga: o próprio governador falava em "vestígios da dominação muçulmana" e Brandão em "restos da vida moira". Mas são leituras da época, sem prova. Emanuel Sancho, que dirigiu o Museu do Trajo de São Brás de Alportel, chamou a essa ligação ao véu islâmico "um mito".
Em Olhão, resistiu décadas
Em 1920, a revista Ilustração Portugueza ainda registava em Olhão "a capa e o biôco". E o Arquivo Municipal de Olhão guarda, na coleção do fotógrafo Domingos Santos, várias fotografias de 1947 e 1948 de mulheres de bioco, muitas delas à porta da Igreja Matriz. Mais de 50 anos depois da proibição, o bioco ainda saía à rua em Olhão.
Não há data certa para o último bioco. O que se sabe é que, enquanto o resto do Algarve o deixou cair, Olhão o manteve até meados do século XX.
Onde ver hoje
- No Arquivo Municipal de Olhão, online: as fotografias de 1947 e 1948 estão no catálogo do Arquivo e podem ver-se no site (as ligações estão nas fontes, no fim deste guia).
- À porta da Igreja Matriz: é o sítio das fotografias. Fica na Praça da Restauração, no centro histórico, e entra no nosso roteiro de um dia a pé.
- No Museu do Trajo de São Brás de Alportel: segundo a imprensa de 2015, o museu tem uma réplica do bioco. Confirma com o museu antes de ires, porque não encontrámos informação oficial atualizada sobre o que está exposto.
Vê também o nosso vídeo sobre o bioco no Instagram, na série Histórias de Olhão: @olhaolovers.
Perguntas frequentes
O que é o bioco?
Era uma capa preta, comprida até aos pés, lançada sobre a cabeça de forma a esconder o rosto, usada pelas mulheres do Algarve e muito ligada a Olhão.
Porque foi proibido o bioco?
O governador civil de Faro, Júlio Lourenço Pinto, proibiu-o em 1892 nas ruas e igrejas do distrito, no artigo 32.º do Regulamento Policial. Via-o como uma máscara que impedia reconhecer quem andava na rua.
Até quando se usou o bioco em Olhão?
Não há data certa. O Arquivo Municipal de Olhão tem fotografias de 1947 e 1948 de mulheres de bioco à porta da Igreja Matriz, mais de 50 anos depois da proibição.
O bioco era uma burca?
A comparação é comum, mas a origem islâmica nunca foi provada e já foi chamada de mito. Na época, a feminista Maria Veleda defendeu o bioco em nome da liberdade das mulheres.
Este guia é informativo e foi verificado na data indicada. Horários, preços e regras podem mudar: confirma sempre junto das entidades oficiais antes de ires. Se vires algo desatualizado, avisa-nos pelo Instagram @olhaolovers.
Fontes
- Público (14/06/2015): A burka também existiu no Algarve, era o bioco e dava liberdade à mulher
- Raul Brandão, Os Pescadores (1923), capítulo "Olhão" (domínio público, Internet Archive)
- Arquivo Municipal de Olhão: Três mulheres trajando de bioco (1947)
- Arquivo Municipal de Olhão: Mulher trajando um bioco à porta da igreja matriz (1947-1948)
- Arquivo Municipal de Olhão: Mulheres trajando um bioco à porta da Igreja Matriz (1947-1948)
- Observador (17/02/2015): Bioco, a burka algarvia que acabou por decreto
- Postal do Algarve / Lusa (10/08/2015): Antiga capa algarvia banida no século XIX foi recriada

